Encontro Nacional para a Economia de Francisco – Dia 1

Texto escrito por: Isabel Gnaccarini – Jornalista e doutoranda em Ambiente e Sociedade no IFCH – Unicamp

ABERTURA: Os chamados do papa Francisco

Se há no cenário internacional uma liderança que reúna corações e mentes, essa personalidade é o papa Francisco. O pontífice católico não apenas discursa, mas convoca (e provoca) à ação em torno de projetos globais. Não bastasse o Sínodo para a Amazônia, que reuniu no mês de outubro de 2019 o clero e leigos sobre uma nova evangelização para essa região, o papa também lançou nesse mesmo ano duas novas articulações mundiais – uma para RE-almar a economia; a outra para definir as bases para uma nova educação. O movimento pela Economia de Francisco está em andamento, e seu lançamento está previsto para os dias 19 a 21 de novembro de 2020.

A Economia de Francisco

Em resposta à construção por uma nova Economia, 2 mil jovens de 120 países estão enviando propostas para o encontro de Economia de Francisco – o evento que deveria ter acontecido entre os dias 26 a 28 de março em Assis, cidade italiana de origem de São Francisco, foi postergado para novembro, e por causa da COVID19 será online. No Brasil, com o intuito de reunir a juventude selecionada para o encontro com o papa, entidades e movimentos sociais se reuniram para debater sobre as iniciativas já afinadas com a proposta vaticana. Em um grande encontro nacional, realizado durante os dias 18 e 19 de novembro no Tucarena, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em São Paulo, cerca de 500 pessoas vindas de todo o país, incluindo representantes de 35 entidades, definiram as bases para a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC).

 

A ABEFC buscou preparar uma proposta brasileira congregando visões e experiências de sucesso em convergência com a ideia da Economia de Francisco, como é o caso da Economia Solidária, que ganhou corpo a partir do pensamento do economista Paul Singer. A ideia fundamental dessa nova economia globalizada é a de uma grande transformação nos países do chamado Ocidente. E nesse encontro preparatório para o grande evento em Assis, procurou-se trabalhar os três eixos estabelecidos no projeto do Vaticano para o ano de 2020 – a Economia de Francisco, cujas bases é ser uma economia inclusiva, marcada pela ética, justiça social e humanismo; a construção de experiências concretas para essa nova economia; e as mudanças nos currículos das faculdades de Economia, com o Pacto pela Educação.

 

A inspiração para essa proposta papal veio de cientistas internacionalmente reconhecidos, com assessoria de dois prêmios Nobel em Economia: Amartya Sen (Nobel de 1998) e Joseph Eugene Stiglitz (Nobel de 2001). Mas sobretudo veio do desejo de reunir jovens de todos os lados para discutir essas propostas – do Brasil serão por volta de 280 rapazes e moças com ideias originais para a mudança em nível mundial.

Ecossocialismo e inter-religiosidade

Na programação do evento nacional na PUC-SP, ocorreram mesas, painéis e rodas de conversa, sendo essas últimas para compartilhamento de experiências concretas, e sistematização das diretrizes brasileiras a serem levadas à Itália. A abertura, ocorrida na parte da tarde da segunda-feira (19/11), teve a fala do sociólogo brasileiro radicado na França, Michael Lowy; da sacerdotisa Mãe Eleonora, do terreiro Ilê Ase Omo Oya Bagan Odé Ibô e coordenadora do Ponto de Cultura Caminhos; e de Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e da Rede Quilombação.

 

Para Michael Lowy, hoje diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) da França, o ecossocialismo é uma proposta totalmente em sintonia com o que pregava São Francisco de Assis. “Francisco de Assis pregava a partilha e o amor à natureza, a igualdade social e o amor aos pássaros. Na Encíclica [ecológica] Laudato Si’, o papa Francisco se inspira nesta tradição franciscana para denunciar o atual sistema econômico globalizado – o que ele nomeia de um sistema “estruturalmente perverso”, pois destruidor ao mesmo tempo da natureza e da dignidade humana, e sendo o único critério a maximização do lucro”, argumentou Lowy.

 

Segundo o professor, o ecossocialismo partilha deste lúcido e implacável diagnóstico do papa Francisco, sendo tal proposta de economia politica inspirada nos mesmos valores da carta verde católica: “A dignidade humana, a justiça social e o respeito por nossa Casa Comum, a Mãe Terra. O socialismo ecológico é uma proposta nova, que coloca a ecologia no centro do projeto social, que, sabidamente visa superar a perversa estrutura capitalista dominante, e iniciar a transição para uma nova civilização,  socialista e ecológica,  democrática e libertária”, disse.

 

Mas o encontro não é apenas religioso, e menos ainda um encontro católico. O jornalista Dennis de Oliveira concordou com Lowy sobre a íntima conexão entre a degradação ecológica e a humana, e sobretudo com a gritante desigualdade que vive também o Brasil – “nossa desigualdade se reflete nos 54% da nossa população, que é negra e vive nas periferias degradadas das cidades”. Para ele, os diagnósticos da desigualdade socioeconômica se consolidam em uma nova morfologia das periferias das cidades. Não há mais a percepção do povo trabalhador que ali vivia como “operários”; hoje são ambulantes, motoboys etc. que não se percebem mais como operários, e, portanto, sem a perspectiva de lutas de classe. Porém, otimista, o ativista pensa ser nessa periferia em que vivem esses trabalhadores o território da potência para a construção de uma resistência renovada – ele defende a ideia de um “sujeito periférico” criador de alternativas para a economia atual.

 

Nessa mesma linha, a Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz, que esteve presente no evento, acredita que a Igreja católica de vanguarda deve defender uma economia para a vida, que não mata. Fundada em dezembro de 2017, no bojo das polarizações políticas brasileiras das últimas eleições presidenciais, a Frente reúne pessoas de diversas religiões, mas também leigos com as mesmas aspirações de uma sociedade justa. Sergio Storch, secretario geral da Frente, acredita que a bandeira levantada pelo papa Francisco é universal. “Todos nós temos compromissos com a justiça e paz, independentemente de sermos de diversas religiões, incluindo religiões não cristãs, como a judaica e a muçulmana, e também ‘não abraâmicas’, como a budista e o candomblé”, enfatizou ele. Storch lembra que o papa Francisco não está trazendo nenhuma mudança radical: “ele está apenas inovando na trajetória humanista da Igreja iniciada, pelo papa João XXIII, meio século atrás”.

Confira o vídeo com a mesa de abertura do evento:

 

Redação GT Comunicação

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